Generais entre a sátira e a revolta: Porta dos Fundos toca na ferida aberta da caserna, que anda dividida

Generais entre a sátira e a revolta: Porta dos Fundos toca na ferida aberta da caserna, que anda dividida

Vídeo que ridiculariza a ditadura e o 8 de janeiro expõe não apenas a vaidade dos generais, mas uma fratura exposta de uma instituição onde parte da base e a reserva dá indicações de que despreza o topo e o legalismo serve de escudo para a honra ferida.

 

O mais recente vídeo do Porta dos Fundos, protagonizado por Fábio Porchat e Rafael Saraiva, fez mais do que viralizar entre civis: ele caiu como uma bomba de fragmentação dentro dos grupos de mensagens e redes sociais das Forças Armadas. Ao ironizar a repressão da Ditadura e os atos de 8 de janeiro como “insumos culturais”, a esquete conseguiu a proeza de unir, na mesma caixa de comentários, a indignação burocrática dos oficiais e o escárnio dos praças e conservadores desiludidos com seus comandantes.

O roteiro ácido, que sugere que a classe artística deveria “agradecer” aos militares pela perseguição que gerou obras-primas, serviu de espelho para uma instituição em crise de identidade.

O Refúgio no Legalismo e o Fantasma do Comunismo

Para uma parcela da “família militar”, a resposta à sátira foi o recuo imediato para a trincheira da burocracia e do revisionismo histórico. Incapazes de lidar com a crítica moral, muitos apegaram-se à literalidade da lei para desqualificar o humor.

Comentários em redes fechadas evocaram o Artigo 172 do Código Penal Militar, bradando que o “uso indevido de fardamento” é crime, referindo-se ao fato do humorista usar uma farda de general. “Tem muito militar usando a farda indevidamente”, retrucou um usuário, expondo a hipocrisia de quem se preocupa mais com a vestimenta cênica de um comediante do que com a conduta ética de oficiais generais envolvidos em escândalos reais.

Outra linha de defesa foi a velha tática do “e o PT?”. Diante da piada sobre a Ditadura, a reação pavloviana de muitos foi desenterrar a Guerra Fria. “Ninguém faz piada com os 19 atentados a bomba antes de 64, ou com militantes treinando em Cuba”, reclamou um militar, tentando justificar a repressão do passado com os crimes da oposição da época. Para esse grupo, qualquer menção aos excessos do regime militar é uma “inversão da lógica histórica”, ignorando deliberadamente que o vídeo satiriza a consequência cultural, e não a cronologia bélica.

“Melancias” e Traidores: Quando a própria tropa ri dos generais

O aspecto mais revelador da repercussão, contudo, não foi a defesa da instituição, mas o ataque interno à sua cúpula. A sátira do Porta dos Fundos encontrou eco surpreendente entre militares de baixa patente e apoiadores do ex-presidente Bolsonaro, que hoje enxergam o Alto Comando como “traidores” ou “melancias” (verdes por fora, vermelhos por dentro).

Para esses, o vídeo foi uma oportunidade de ver os generais sendo humilhados publicamente. “A pior instituição de todos os tempos”, disparou um comentário, enquanto outro celebrava: “Toda humilhação pra traidores e covardes é pouco”. A piada de Porchat serviu como vetor para extravasar o ressentimento de quem se sente abandonado pela liderança.

A questão salarial e o abismo entre classes dentro da caserna também vieram à tona. “Olha o meu contracheque. Imagino o praça vendo isso! Realidade pura”, desabafou um internauta, validando a crítica do vídeo sobre os privilégios da elite fardada. A sensação é de que, enquanto a cúpula se preocupa com sua imagem e com “mamatas”, a base e os pensionistas são deixados à própria sorte. “Até policial hoje caga na cabeça [do militar] e fala que ganha mais”, resumiu um comentário amargo.

O Preço da Politização

A reação esquizofrênica — ora atacando o humorista, ora concordando com a humilhação dos generais — é o sintoma final da politização desenfreada das Forças Armadas.

Muitos atribuem a vergonha atual às escolhas políticas recentes. “Foi isso que o Bozo e seus generais comprados e golpistas arrumaram para as FFAA”, escreveu um crítico, enquanto outro apontava o atual governo: “O preço a pagar em se aliar a esse governo”.

Para os legalistas, foi um crime contra a farda. Para os direitistas, foi uma peça esquerdista, mas útil para bater nos generais “frouxos”. E para a sociedade civil, foi apenas a constatação do óbvio e mais uma peça de comédia.

Como bem resumiu um comentário que tentava minimizar o impacto: “É sério que é isso que preocupa os militares? Uma piada? É melhor voltarem a cortar a grama”. A tragédia da imagem militar brasileira é que, hoje, a piada parece ser a única coisa que eles levam verdadeiramente a sério.

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